PS* - edição especial
Publicado em 03. Out, 2009 em Preso na Rede
“será possível alguém do exterior entrar no meu computador e conhecer os meus e-mails? Estará a informação confidencial contida nos computadores da Presidência da República suficientemente protegida?”, perguntou-se o nosso Excelentíssimo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, mediante um polémico e-mail, supostamente na origem do desenrolar das notícias de escutas em Belém. E perguntou-se com toda a legitimidade. Talvez com um bocadinho de ingenuidade, talvez com alguma infoexclusão à mistura, mas com toda a legitimidade.
Ter um computador ligado à Internet é como ter um carro na via pública. Podemos ter o melhor e mais avançado alarme, fechaduras de última geração, ignição trancada e uma boa e velha tranca no pedal, mas existe sempre alguém que consegue dar a volta a tudo isso e levar-nos o “bolinhas”. A única forma de proteger totalmente o seu computador é, simplesmente, não o deixar ter contacto com outros computadores.
Disquetes (ainda as usa?), CDs, DVDs, pens USB, discos rígidos externos e qualquer outro suporte de dados são portas abertas que permitem a entrada e saída de informação em qualquer computador. A Internet, especialmente, é uma rede de interligação e comunicação entre máquinas que tem na sua génese a partilha de ficheiros e por isso mesmo é o meio, por excelência, de acesso a tudo aquilo que tem guardado no seu computador. Claro que existem protecções: um anti-vírus, uma boa firewall, outro sistema operativo que não o Windows dificultam o trabalho de quem se dedica a invadir computadores alheios, mas a realidade é que não existe nenhum sistema perfeito que proteja o seu “bolinhas” e se tudo o resto falhar os prevaricadores podem sempre optar pelo “carjacking”.
Sempre que envia um e-mail, este segue um caminho sinuoso e não pense que sai do seu computador para entrar de seguida no do destinatário. Tal como o leitor entra no seu carro de manhã e segue por uma rede de estradas até ao emprego, passando por sinais, parando em semáforos, obedecendo a regras de trânsito e deixando os transeuntes atravessarem na passadeira, também um e-mail segue a sua própria rede entre tráfego digital e regras próprias, até chegar ao destino. Nesse caminho é possível resgatar o conteúdo de qualquer e-mail, sem que remetente e destinatário se apercebam da invasão e inclusive alterar esse conteúdo. Cópias do correio electrónico que envia, podem ficar perdidas na rede durante anos e e-mails com novos conteúdos perigosos para o seu computador chegam todos os minutos.
Talvez estas linhas ajudem os nossos governantes a compreender melhor os novos meios que utilizam nas comunicações e, com ou sem segurança, acho bastante revelador o cabeçalho do dito e-mail da polémica: “ envio este e-mail em vez de telefonar, para manter o sigilo” (cito de memória). Revelador da ignorância tecnológica que existe, uma ignorância tão grande que pode levar à utilização de um computador de estado para fins mais mundanos, que aparentemente não têm consequências de maior. Mas uma simples inscrição no que parece ser um inofensivo e-mail com publicidade a qualquer assunto de lazer pode comprometer toda uma rede interna com um clique em vírus especializados na recolha de informação.
Apesar de toda a tecnologia no início do século XXI, a segurança continua a estar na mão das pessoas e a forma como se utiliza um computador e a própria Internet, dita a protecção do “bolinhas”. Formação, informação e conhecimento são essenciais para uma boa e segura utilização de novas formas de comunicar, que têm tanto potencial para ajudar, como para prejudicar.
* - Post Scriptum
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